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Instrumentos Perfeitos, Fins Vagos
Parece que em matéria de Pesquisa de Opinião a máxima atribuída a Einstein para caracterizar nossos dias não se aplica nem em sua primeira parte. O que se vê, via de regra, nas eleições, aos olhos de políticos e da imprensa, e passado para a própria Opinião Pública, é uma derrota das “prévias” eleitorais frente a alguns resultados observados. Dois aspectos merecem reparo antes que nos defrontemos com situações similares. Em primeiro lugar a importância de se preservar a incolumidade da pesquisa enquanto instrumento de informação da população, a quem afinal mais diretamente diz respeito. A opinião pública brasileira tem uma longa tradição de servir como “massa de manobras”. É tradição em nosso país falar-se em nome do povo, de tomar decisões para o “bem de todos e felicidade geral da nação”. Entretanto, o que não é tradição em nosso país é passar para a Opinião Pública o que ela é, o que ela pensa, o que deseja, qual sua reação enquanto individuo constitutivo da coletividade. Neste sentido, pode-se observar uma leve mudança nesses últimos anos com a publicação crescente de resultados de pesquisa via grande imprensa. E é aqui precisamente um dos pontos que merece reparo. O bombardeio, resultante de interesses múltiplos, do instrumental de pesquisa inviabiliza a constituição de um dos poucos espelhos capaz de refletir a Opinião Pública a si mesma, sua imagem e semelhança. Assim, cabe aos pesquisadores e aqueles envolvidos com o processo de divulgação a responsabilidade de, enquanto profissionais, cuidar para que a utilização do instrumental e as comunicações decorrentes se façam dentro das técnicas e normas que regulam seus usos; contribuindo efetivamente como um instrumento a mais para a conquista da democracia no país. Outro aspecto à consideração diz respeito à questão das “prévias” eleitorais. Sobre isso leia-se um texto escrito em 1896 (século XIX!) por Gustave LeBon – “The Crowd” – que diz algo assim “sejam quais forem os indivíduos componentes, sejam ou não semelhantes seu modo de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência, o fato de terem sido transformados em multidão confere-lhes a posse de uma espécie de cérebro coletivo, que os faz sentir, pensar e agir de modo completamente diverso do que cada um dos indivíduos sentiria, pensaria ou agiria em um estado de isolamento. Há certas idéias e sentimentos que não surgem e não se transformam em atos exceto no caso de indivíduos formarem uma multidão...” Evidentemente que o fenômeno multidão aqui considerado pelo autor refere-se a situação de aglomeração com a presença física dos indivíduos. Contudo, não é de todo descartável, por um lado, a aglomeração imaginária constituída a partir do espelho mencionado anteriormente. Além disso, o ato de sair à rua, afora o aspecto ritualístico que possa ser considerado e as implicações culturais de que fala Roberto da Matta em seu “A Casa e a Rua”, efetivamente introduz um caráter de multidão. É esse caráter que descarta a idéia absoluta de prévia na pesquisa eleitoral, pois não se pode antecipar algo que ainda não se constituiu. Em ambas as situações fica evidenciada a função da pesquisa eleitoral não como uma ação que visa antecipar resultados, mas seu caráter de balizamento para a Opinião Pública, permitindo o acompanhamento pelo seu principal ator do processo, que é o cidadão. Neste balizamento, espelho no qual a cidadania vai reconhecer os seus desejos e anseios, fica estabelecida uma forma de participação onde a identificação da população com as várias tendências políticas pode permitir o livre jogo democrático das eleições. ________________________________________________________________________________________ Quem te viu, quem te vê
Em 1976, participando de um projeto sobre sistema viário em SP, cruzei com monsieur Werz, um suíço especialista nos assim chamados trólebus. Monsieur Werz era considerado um dos maiores especialistas mundiais no assunto e a Suíça detinha uma das mais avançadas tecnologias na fabricação de ônibus elétrico da época. Fui encarregado de, juntamente com monsieur Werz, sobrevoar a cidade de São Paulo para que o especialista tivesse um primeiro contato com a cidade, na qual ele estava sendo contratado para auxiliar em um novo projeto de Trólebus Especiais, e do qual eu também participava. Então, em uma tarde de sexta-feira embarcamos no helicóptero do governador e partimos para um sobrevôo sobre nossa capital paulista. Percorremos toda a área compreendida pelas marginais Pinheiros e Tietê, seguimos até a região do ABC e depois nas cercanias de Guarulhos, e por fim retornamos ao heliporto do Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo do Estado de São Paulo. Esperavam-nos uma dezena de jornalistas, repórteres e radialistas, todos ansiosos pelo diagnóstico do suíço. Sério e compenetrado, monsieur Werz dirigiu seu olhar para a pequena multidão e sentenciou: Pas de Solution! Ou seja, na visão do especialista, há mais de 30 anos atrás sua primeira reação foi de que não tínhamos como resolver o enorme congestionamento através de soluções viárias de superfície: Não tem solução! ...
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